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Técnica de apuração pode virar Patrimônio Cultural Imaterial

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Garimpeiros querem apoio do Iphan para ofício que faz parte da história de Diamantina há 300 anos

Ernesto Braga - Do Hoje em Dia – 10/10/2011 – 08:08

DIAMANTINA – Debaixo da lapa usada como abrigo, o garimpeiro Belmiro Luiz Nascimento, de 48 anos, acende o fogo da fornalha improvisada. Nas mãos, a bateia usada para retirar a massa de pedras que brota do fundo do Ribeirão do Guinda, afluente do Rio Jequitinhonha. As chamas servem para aquecer a ferramenta, separando o polme do ouro ou diamante, aos sopros e leves toques com o polegar. A técnica de apuração faz parte da história de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, há pelo menos 300 anos. Belmiro quer, agora, que ela se torne Patrimônio Cultural Imaterial, a exemplo da maneira artesanal de fazer o queijo Minas.
Para isso, busca apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A intenção é muito maior do que promover o reconhecimento da técnica que aprendeu com os antepassados – o garimpo é fonte de renda da família dele há dois séculos. “Vivemos num mundo de fantasia e dura realidade. Com o discurso do dano ambiental, nós, garimpeiros, estamos praticamente em extinção”, lamenta Belmiro. Segundo ele, com rígidas regras de licenciamento ambiental e altas taxas pagas para se ter o direito de lavra, o ofício está cada dia mais raro em Diamantina e funciona, muitas vezes, na clandestinidade.
“Temos que pagar mais ou menos R$ 30 mil, e a espera pela autorização chega a dois anos. Para nós, fica inviável. Acho que é uma forma educada de dizer ‘vocês estão proibidos’. Dos 3 mil garimpeiros da cidade, 90% estão parados”, afirma Belmiro. No Garimpo Real, a dez quilômetros do Centro Histórico de Diamantina, ele e mais seis companheiros labutam de sol a sol, com o sonho de encher o picuá (pequeno frasco usado para transportar as pedras de diamante até a cidade). “Esse garimpo existe desde a época do Império e não há uma ponta de rocha quebrada. Sinal de que a preservação faz parta da consciência dos garimpeiros há muitos anos”, ressalta o diamantinense.
A preservação ambiental foi tema da oficina “Uma leitura ecológica da história do Brasil”, dada neste domingo (9) pelo historiador e ambientalista José Augusto Pádua. Professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele participa do Festival de História (fHist), promovido em Diamantina pela Revista de História da Biblioteca Nacional, com o apoio cultural do Hoje em Dia. “A história do garimpo e da mineração na região de Diamantina (Serra do Espinhaço) ainda é uma página a ser escrita pelos estudiosos. Sabemos de efeitos provocados pela extração mineral, como assoreamento de rios e desmatamento de matas ciliares. Só no século XXVIII, foi usada uma tonelada de mercúrio nos rios dessa parte de Minas Gerais”, destaca.
O historiador, no entanto, ressalta que precisaria fazer uma análise mais criteriosa da atividade na região para opinar sobre os impactos. “Isso vai de caso a caso. O desmatamento para criação de gado pode ter efeito muito mais nocivo do que o garimpo. Não sou nenhum xiita, só defendo a sustentabilidade”, afirma.
Segundo o especialista, a exploração do ouro e diamante chegou ao Brasil em 1501, com os colonizadores portugueses. “Os europeus tinham o hábito de escrever o que vinham buscar aqui e no topo da lista estava ‘tanto ouro como cobre, pedras preciosas e outros metais’, que eram trocados por ferro”.
Nascido há 86 anos em Bom Sucesso, distrito de Diamantina, Raimundo Camilo Guedes só largou a bateia, peneira e enxada em 2006. Teve de passar a morar na cidade para cuidar da saúde, mas sente muita falta da vida no garimpo. “Comecei acompanhando meu pai e tirei minha primeira grande pedra com 15 anos. Saudade da época em que a gente amarrava o cavalo no Mercado (Municipal) e ia saudar JK (presidente Juscelino Kubistchek) no meio da rua. A história de Diamantina é isso aí…”, diz.

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